Poria as coisas desta forma: dado o actual quadro laboral e social, quadro esse eivado de uma distorção clara do equilíbrio anterior entre o lúdico e o dever, considero que a hipótese - ainda que apenas teórica - de poder vir a ter umas fériazitas não seria de todo despiciente.
O que é como quem diz, "nunca mais chegam o raio das férias!!!"
"Speak Like a Child", álbum em vinil que me fez dar um salto para a frente na forma de ouvir jazz. Álbuns destes comprava-os na altura na Novalmedina. Ia a Coimbra e depois regressava a casa, no comboio, a ler durante a viagem todas e quaisquer letras que pudessem estar impressas naquela embalagem de cartão grosso, dizendo para comigo "nunca mais inventam uma porcaria qualquer assim tipo mp3...".
Quando chegava a casa já sabia tudo do disco. Só me faltava ouvi-lo.
"Speak Like A Child" foi gravado em 1968 e Herbie Hancock juntou para o álbum um sexteto composto por bateria, contrabaixo, piano, trombone baixo, fluegelhorn e flauta alto. Pouco convencional, portanto. Tal como a forma das composições e o papel da secção de sopros, desprovidos do papel de solistas e dedicados apenas a pincelar algumas texturas harmónicas.
Álbum de composições sofisticadas e inovadoras, é o que de melhor se poderia esperar de quem na altura fazia parte do quinteto de Miles Davis.
Aqui o tema "Speak Like A Child", em trio. Tocam Herbie Hancock, Ron Carter e Billy Cobham.
Máquinas! Todos estes tipos são verdadeiras máquinas, tubarões de estúdio.
Neste episódio da excelente série "Classic Albums: The making of..." (já passou no Mezzo) pode ver-se Rick Marotta a explicar o formidável balanço que ele criou para "Peg", a faixa do mítico álbum "Aja" dos Steely Dan. Chuck Rainey explica como usou o slap às escondidas, numa época em que este apenas se começava a usar e Michael McDonald fala-nos sobre a sua incrível malha vocal de "close harmonies" durante o refrão.
E podemos ainda ver Walter Becker e Donald Fagen a falar da escolha óbvia do solo de guitarra de Jay Graydon e a desmontar a música pista por pista.
E aqui assistimos à versão instrumental de "Peg" com Bernard Purdie, um dos seis bateristas de "Aja". (note-se, é imprescindível procurar no google 'Bernard Purdie shuffle').
Já não é novidade há muito tempo, mas "Aja" continua a ser um dos discos para a ilha deserta.
Todos os anos por esta altura recebo na caixa de correio uma publicação que me é gentilmente enviada pela organização do North Sea Jazz Festival, na Holanda. Para além de me elucidar sobre o programa do festival – que deixou Haia há três anos e decorre agora em Roterdão – esta publicação dá-me ainda uma quantidade espantosa de pormenores e informações úteis, todas elas ligadas ao festival e aos músicos que nele participam.
É que, para além dos múltiplos espectáculos que começam à tarde e se prolongam pela noite dentro, simultaneamente em 16 salas e auditórios, há uma enorme quantidade de outros eventos associados ao festival: workshops, clinics, feiras de jazz, colóquios sobre jazz, exposições sobre fotografia e jazz, sobre cinema e jazz, actividades jazz and kids, TUDO e o jazz!
Esta é por isso, há mais de 15 anos, uma época especial para mim, a altura em que fico a saber tudo aquilo que vou perder. Mas eu, estoicamente resistente ou então uma espécie de masoquista, continuo a não pedir que cancelem de uma vez por todas o envio do raio da revista nem a planear ir lá de uma vez por todas!
Uma coisa em especial gostei de saber, que este ano lá estará também Cristina Branco a apresentar o disco “Abril”, com Ricardo Dias (piano), João Moreira (trompete), Mário Delgado (guitarra), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria).
Este par de holandeses têm vindo nos últimos tempos a ocupar uma boa parte do tempo que dedico a ouvir música.
Michiel Borstlap, pianista ecléctico, dono de diversos estilos e de uma criatividade surpreendentes. Ouçam-se as suas recriações de músicas antigas de/com Gino Vannelli, ou da música dos Weather Report, ou ainda as colaborações vanguardistas com Bill Bruford. E ainda os formidáveis álbuns “Gramercy Park”, “Residence” e o muito recente “Eldorado” (a prolongar o jazz-funk de Herbie Hancock do tempo de “Mr. Hands” ou de “Future Shock”).
E depois há este nome impronunciável, Trijntje (‘traincha’) Oosterhuis, cantora extraordinária – o que neste caso quer dizer exactamente isso, extraordinária! – cujas raízes assentam na pop mas que entretanto passou para a Blue Note.
Ouçam-se os seus álbuns “For Once In My Life” e “The Look Of Love”, respectivamente os songbooks de Stevie Wonder e de Burt Bacharach (este último gravado com a Metropole Orchestra e com arranjos de Vince Mendoza, disco de platina no dia do lançamento!).
Embora não sendo parceria habitual aqui estão os dois juntos, o trio de Michiel Borstlap com Trijntje Oosterhuis a cantar de forma sublime “The Man I Love”. Repare-se no controlo da voz e na forma como ela deliberadamente a enrouquece. E, mais para a frente, aquele solo lindíssimo do piano com pinceladas de Bill Evans lá pelo meio (3’28’’...).
Dei com esta cara a bordo de um avião, numa daquelas revistas de leitura distraída e ensonada, enquanto bocejamos entre a refeição ligeira e o discurso do comandante.
Fez-me despertar e registar este nome: Caroline Halley des Fontaines.
As suas fotografias mostram-nos pessoas e lugares com pessoas. Envolveu-se em organizações de defesa dos direitos humanos e viajou com elas recolhendo luz e sombras em que nem sempre reparamos.
Caroline Halley des Fontaines tem estas e outras fotografias reunidas no livro “Time and Silence” e fez-me pensar em quanto eu gostaria de fazer o mesmo.
Chris Botti: trompete; Billy Childs: piano; James Genus: contrabaixo; Billy Kilson: bateria; orquestra dirigida por Gil Goldstein. Chris Botti - Cinema Paradiso